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  • Henrique Correia

Namoro e porrada



É grave que isso aconteça, é mais grave que seja aceite, da forma como é, por parte de muitos jovens, mais do que se pensa, muitos deles já viram esse estado comportamental em casa e não aprenderam nada com isso.



"Quanto mais me bates mais gosto de ti". A inocência, o carinho e a brincadeira que tantas vezes envolveu, envolve e certamente envolverá a utilização desta frase, relega para um segundo plano a seriedade do conteúdo, que os tempos e as tradições foram deixando como triste "legado" comportamental. No fundo, brincamos com coisas sérias. Daquelas frases que ficaram. Como "atirei o pau ao gato, mas o gato não morreu" (o que é isto?) para entreter os meninos do meu tempo. Não sei que pensou nisso, pensou mal mas pensou.

Fora de brincadeiras, como é costume dizer, este quanto mais me bates mais gosto de ti está sempre muito presente. Foi assim ao longo dos tempos. Falando a sério, à parte a brincadeira inocente. Não é conjuntural, não é geracional, mais grave do que isso, é transversal às gerações, com maior ou menor incidência, com maior ou menor frequência, mas sempre grave, sempre a caraterizar uma sociedade, que se diz evoluída, mas simultaneamente atrasada, uma sociedade que faz da violência doméstica, da violência no namoro, uma estranha questão cultural, onde a submissão feminina, sem generalizar, é observada como um factor determinante para o "seguro de vida" das relações.

É grave que isso aconteça, é mais grave que seja aceite, da forma como é, por parte de muitos jovens, mais do que se pensa, muitos deles já viram esse estado comportamental em casa e não aprenderam nada com isso. O álcool pode vir como desculpa de outra forma, podem substituir o vinho seco pelo "shot", mas a chapada é a mesma. O atraso mental também.

Por estes dias, a União de Mulheres Alternativa e Resposta (UMAR) divulgou um estudo, que não surpreende porque já existiram nesse mesmo sentido, em que 67% dos jovens consideram legítima a violência no namoro. Destes, 26% acham legítimo o controlo, 23% a perseguição, 19% a violência sexual, 15% a violência psicológica, 14% a violência através das redes sociais e 5% a violência física. Perto de sete em cada dez jovens acham legítimo o controlo ou a perseguição na relação e quase 60% admitiram já ter sido vítimas de comportamentos violentos.

Um descalabro, é o que é. Um enquadramento, já conhecido, mas sempre impressionante pela falta de evolução, sempre trazido a público em momentos festivos, como é o caso, este domingo, dia dos namorados, onde cada vez com maior incidência se observa uma coexistência "pacífica de duas palavras antagónicas para qualquer ser normal: namoro e porrada.

Este estudo não vai servir de nada. Mas é sempre bom sabermos e debatermos este problema estrutural de uma sociedade que está doente e não sabe, o que ainda é pior.

Gostava de acreditar na mudança. Mas não sei se conseguimos ter futuro com o passado que tivemos e este presente que temos.

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