O desconforto dos cidadãos sobre segurança no Funchal não está nos relatórios

Governa-se com números, mas também com realismo. Isto não é um apoio que se dá a um clube com base no número de atletas e envolvência em competições.

O Dr. Miguel Albuquerque muniu-se de um relatório da Administração Interna, com dados de 2021, para "garantir" a segurança na Madeira, particularmente no Funchal. Diz que "para governar, tenho de me basear em factos concretos". E esses dados concretos são números, estatísticas que colocam a Região numa posição melhor por comparação com outras cidades do País, um "consolo" que pode dizer muito a quem governa pelos números, mas devia dizer muito a quem deve governar, também, pelo sentimento dos cidadãos, que não se expressa pelos números mas pelo que se sente e se vive, todos os dias, especialmente na cidade capital.
Ver cada vez mais pessoas deambulando pelo Funchal, na pedincha e às vezes reagindo mal com os cidadãos quando estes não correspondem com o que é pedido, é insegurança. Ver, às claras, a imagem que todos os dias muitos cidadãos observam na zona velha da cidade, não é estatística, é preocupação dos cidadãos que não consta de qualquer relatório. A população de São Roque, que vive diariamente um grave problema de droga, com a polícia a "carregar" pontualmente para fazer alguma coisa que a lei não faz, não é um assunto que conste de relatórios se não houver facadas ou mortes ou for motivo de queixa. E isto se não chegar à polícia e os agentes disserem que não vale a pena fazer queixa porque dá em nada. Esta realidade não está no relatório da Administração Interna que o presidente do Governo trouxe ontem para dizer que governa com factos desvalorizando, embira diga que não, um sentimento generalizado de insegurança, como aliás confirma o próprio presidente da Câmara, que falou precisamente nas situações de consumo de substâncias psicoativas durante o dia e assaltos a pessoas e estabelecimentos à noite, também factos que ocorrem na "sua" cidade e que justificam um posicionamento mais realista que um discurso de "paraíso" não esconde e, por isso, não vale a pena encobrir ou minimizar.
Ninguém diz que há facadas todos os dias na cidade, ninguém diz que há mortos todos is dias, um dia destes houve, ninguém diz que o Funchal é uma cidade insegura. E é verdade que há assaltos em todas as cidades e Lisboa está bem pior. É verdade. Mas com o mal dos outros, podemos bem. O que se diz é que há um maior desconforto dos cidadãos relativamente à segurança na cidade do Funchal, agravado este ano de 2022, o que provavelmente nem vem das estatísticas a divulgar em 2023. Governa-se com números, mas também com realismo. Isto não é um apoio que se dá a um clube com base no número de atletas e envolvência em competições ou a uma empresa com base nos prejuízos (até mesmo aqui há engenharias financeiras para dar a volta). Isto de segurança é outra coisa, não se pode dar a ideia que as pessoas são destituídas de avaliação sobre o que se passa e sobre o que sentem.
Claro que os governantes não gostam de falar de problemas. Porque na realidade, falar de problemas de segurança numa Região de turismo é complexo, corre mundo e prejudica o destino. Entendo, por isso, a mensagem de Miguel Albuquerque. Mas embora se compreenda a intenção de acalmar os ânimos evitando aproveitamentos políticos, que pode haver, é certo, também não é bom que os governantes tenham um entendimento em contraciclo com aquilo que os cidadãos sentem, para não parecer que estão num registo fora da realidade.
O relatório da Administração Interna pode dizer muito dos registos de ocorrências, mas diz zero no desconforto dos cidadãos.



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