O "ferry" é uma questão do Estado, é serviço público e não disputa eleitoral

Um "braço de ferro" entre governos, que concentrados e perdidos na dialética partidária, remetem os cidadãos, contribuintes e muitos votantes, para um papel de meros asistentes.

Também acho que a questão do "ferry", para além de económica, é sobretudo política. E como se sabe, já andamos nisto há uns tempos para saber, sempre que a política se mete, com estratégia política, normalmente dá para o torto, valendo aquela máxima que damos o nosso voto para legitimar os governos nas suas decisões em favor do povo. O problema é mesmo este, a favor do povo. O voto até damos com esse objetivo, mas o que legitimamos mesmo é tudo o que os governos fazem, mesmo quando o fazem por calendários pessoais ou eleitoralistas. E isso farta-se de acontecer. Dizem que é a democracia a funcionar e que só podemos resolver daqui a quatro anos. E também dizem que, até prova em contrário, a democracia é o menos mau dos sistemas.
A questão do "ferry" enquadra-se nesta perspetiva. Trata-se de uma questão política, com a qual se fez política, com a qual se continua a fazer política através de um "braço de ferro" entre governos, que concentrados e perdidos na dialética partidária, remetem os cidadãos, contribuintes e muitos votantes, para um papel de meros asistentes, pacíficos e grande parte a apanhar o que lhes dão sem sequer saberem muito bem como e porquê. É assim que se vota, é assim que se governa.
Tem razão o Governo Regional quando afirma que a garantia do serviço marítimo de passageiros entre a Região e o continente deve ser dada pelo Estado no âmbito da continuidade territorial e na linha do que se passa com o transporte aéreo. Deve ser serviço público do País. Tem razão o Governo Regional quando criticou, por diversas vezes, a promessa de António Costa, a antecipação de um pretenso anúncio relativamente ao serviço ferry, por parte de Paulo Cafôfo, então a braços com uma quase vitória regional e em fase de fazer valer o apoio nacional do Governo PS.
Uma razão que assiste ao Governo Regional e que se reconhece, apesar de também ter adotado uma jogada política, com fins eleitoralistas, quando decidiu contratar o "ferry" nos meses de verão e num plano meramente conjuntural, por 3 milhões de euros. É assim, as razões, em política, valem o que valem. As lógicas comportamentais também. Os "peões" deste "jogo" são isso mesmo, "peões" a quem se pede o voto num dia e a quem se pede silêncio o resto do tempo.
E no meio deste "ciclone" de palavras e de atitudes, fica uma certeza que estes e outros governos já deveriam ter resolvido: as ilhas precisam de um serviço marítimo de transporte de passageiros de ligação com o continente. É elementar. É um direito que não pode obedecer, apenas, a critérios economicistas e empresariais. Isso é um problema das empresas com o Estado.
O problema é que esse é, também, um problema de disputa partidária entre quem deveria ter a responsabilidade de servir o País e a Região e não de se servir do País e de se servir da Região para fins de poder.



Comentários