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  • Henrique Correia

O fogo que arde sem se ver...

Atualizado: 26 de Nov de 2020


O fogo vai para o ar quando o povo anda de cabeça baixa, à procura, de forma titubeante, de um norte que lhe diga onde fica o centro da razão e da lógica


Camões não poderia encaixar tão bem neste final de um ano atípico, muito diferente portanto, desde que nos lembramos da "Festa", daquela muito "nossa", dos abraços, dos reencontros, da poncha que sempre fez parte, sabendo bem com conta, peso e medida, da ginja em copo de chocolate e das boas festas a cada passo como se em cada pessoa houvesse o melhor amigo do mundo. Era assim, sempre. Até agora, onde nem o contentamento é tão contente como era e onde a adaptação a um mundo novo transporta-nos para aquela ferida que dói e não se sente. Camões falava de Amor. Todos nós, nesta "Festa", também falamos de Amor, nas suas diferentes vertentes da vida, num enquadramento daquela "Festa", aquela que não tem comparação, que é muito nossa. E pedem-nos, no fundo, para viver diferente como se pudessemos viver diferente um grande Amor.


"Amor é fogo que arde sem se ver; É ferida que dói e não se sente; É um contentamento descontente; É dor que desatina sem doer"

(Camões)


Vamos passar o Natal com a família. Cuidado com isso. Vamos receber os nossos filhos, alguns vêm por 10 dias e estão sete confinados. Cuidado com eles. Vamos ao Mercado sem festa, certamente com muita gente na mesma. Cuidado com essa gente. Não há circo, não há parque de diversão, não há ginja, não há poncha e jantar fora só se for à hora do lanche. Cuidado com tudo o que seja gente junta. O que veio o vírus fazer ao mundo, às vidas, à essência do que somos, do que aprendemos a ser.

E depois há o fogo de artifício. Um cartaz turístico mas com poucos turistas. Um momento alto de votos ao ano novo, mas sobre o qual fazem votos para que o povo fique em casa, quem tem casa com vista. Para quem não tem, a vida será difícil face a um programa apertado para evitar o que é inevitável, os ajuntamentos. Falta saber como será na prática.

Claro que é perfeitamente compreensível. O fogo já estava adjudicado. Os poucos turistas, ainda assim, proporcionam às unidades hoteleiras abertas, dizem que essas ultrapassam os 60% mas a gente só vê hotéis fechados, um rendimento que, se calhar, é o maior dos últimos meses. Compreende-se a dificuldade de quem é forçado a decidir e sabe-se que é sempre mais fácil criticar e apresentar soluções para quem não está no tal "centro do furacão", entre a Saúde e a Economia. Mas o fogo vai para o ar quando o povo anda de cabeça baixa, à procura, de forma titubeante, de um norte que lhe diga onde fica o centro da razão e da lógica que as medidas vão contemplando sem contemplar, algumas por tentativa e erro, bem ao estilo deste vírus ainda desconhecido na sua plenitude.

Vamos fazer a "Festa" com cuidado. Ver o fogo com cuidado, o tal fogo que arde sem se ver num contentamento descontente.

Cuidado para não perdermos a esperança!



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