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  • Henrique Correia

O grande desafio: o dinheiro e a vida


E ninguém pode, ainda, calcular os prejuízos que esta realidade trouxe ao setor (Turismo) e quantos, daqui a um ano, ou talvez nem tanto, terão forças para seguir em frente


O futuro é muito problemático, do ponto de vista da Saúde, das estruturas de Saúde, mas também, e muito particularmente, do ponto de vista social e económico. Não é pessimismo, é realismo. Nem sequer é novidade, é uma constatação resultante das medidas que os governos estão a adotar visando enfrentar o que se chama de segunda vaga da Covid-19, que por exemplo no País, teve hoje mais 63 mortos e 4096 novos infetados em 24 horas. Mas que na Região, ainda que num enquadramento epidemiológico diferente, também já dá indicadores de preocupação face ao aumento de casos de transmissão local, com uma incidência considerável de situações em contexto escolar. A Madeira está melhor do que o o resto do País, mas está pior do que estava há um mês. E não podemos ignorar este quadro, mesmo sabendo que a Região conseguiu, de certo modo, evitar o crescimento de casos que porventura poderiam ser, hoje, de maior dimensão, se não tivesse ocorrido um conjunto de decisões.

Estamos a apostar no "dinheiro e a vida", uma expressão que conhecemos, ligeiramente diferente, das brincadeiras de infância, dos índios e dos cowboys, quando a tensão das setas e das balas ficcionadas levavam ao inevitável "o dinheiro ou a vida" como reação que, não raras vezes terminava num "não brinco mais" tão firme quanto a inocência da idade. Sem que pudessemos, então, imaginar que falando a sério, muito a sério, tudo seria tão diferente quando passado a uma prática em que a pandemia nos transporta, de forma dolorosa, para um confinamento real e que nada tem de imaginário. Um confinamento que nunca mais nos largou, primeiro dentro de casa, depois em todo o lado, de alguma forma nos sentimos confinados pelo medo permanente, mesmo quando permanentemente façamos tudo para viver, normalmente, neste novo normal"O dinheiro ou a vida" é, agora, "o dinheiro e a vida". Defender uma, a vida, segurando as duas.

Estamos nesta espécie de "encruzilhada". Como manter a economia a funcionar, com as empresas e os postos de trabalho, e manter a saúde e a vida das pessoas das empresas. Como manter a escola a funcionar salvaguardando a saúde dos alunos, dos docentes e do restantes funcionários. Como manter os restaurantes a funcionar, os hotéis e salvaguardar a saúde dos trabalhadores, dos turistas, dos clientes. Como manter viva a economia se fechamos a economia. Como salvaguardar o turismo se não há turismo, como salvaguardar os postos de trabalho se não há trabalho, como recuperar um setor que para nós, na Madeira, era o sustentáculo principal da economia, abrangendo postos de trabalho, diretos e indiretos, se pura e simplesmente há hotéis fechados, outros mal abertos e outros que não sabem bem em que situação se encontram. O Turismo, com todas as atividades periféricas, está a atravessar uma crise sem precedentes. Era de esperar, o mundo está assim, mas mesmo esperando e compreendendo, nada impede de fazermos uma avaliação da realidade que vai levar anos a recuperar. E ninguém pode, ainda, calcular os prejuízos que esta realidade trouxe ao setor e quantos, daqui a um ano, ou talvez nem tanto, terão forças para seguir em frente, sobretudo tendo em conta que, na Madeira, predominam as pequenas empresas, que andam no limite da gestão e que, ao mínimo abalo, sofrem muito mais do que num enquadramento em que existem "almofadas" contabilísticas. São imprevisíveis os tempos que aí vêm.

A saúde está primeiro. A vida das pessoas é a prioridade. Sem saúde, não há pessoas. Sem pessoas, não há empresas. Sem empresas, não há trabalho. Sem trabalho, não há consumo. Sem consumo, lá vai a economia. Como é que se sai desta com dois passos em frente e três para trás? E sobretudo como é que se sai disto com tanta decisão do género "fique em casa, ao sábado, das 13 às 5 da manhã do domingo, mas pode sair para ir ao supermercado, abastecer o automóvel, passear o cão, fazer exercício, ir trabalhar, ir prestar ajuda a idosos". Já vimos isto, já vimos tanta gente que não tinha cão a passear o cão, tanta gente a fazer exercício (aqui tem o lado bom do exercício) que nunca saía à rua para isso. São as exceções, muitas.

Como disse António Costa, neste contexto Covid, há duas mensagens fáceis: ou fecha tudo ou abre tudo. Não vai nem com uma coisa nem com a outra. Dizem que vai com equilíbrio. Pois é, aquele equilíbrio desequilibrado...

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