O Poder é sempre muito e a oposição está sempre "quase"

Quem precisa da diferença é quem quer chegar ao Poder, não é quem se satisfaz em ser oposição. Para subir num quadro difícil, é preciso trazer um modelo com alguma coisa nova, que se sinta novo.

Tantas vezes já foi dito que não é nada fácil ser oposição na Madeira. Desde sempre. Vem desde os tempos em que a oposição não queria ser mais do que isso, estava bem assim, na oposição, e se por acaso o Poder lhe caísse nos braços nem sabia muito bem o que fazer com ele. Calhou que nunca caiu. Com duas salvaguardas, num contexto de oposição menos resignada quando em 2019 esteve por um triz, ou quando em 2025 poderia pender para um lado ou para o outro, valeu o peso de um voto do CDS, um partido que, curiosamente, nos últimos anos, quanto menos votos tem, mais vale Governo. E tem sido esta a vida democrática na Madeira, fácil para quem governa, dificil para quem é oposição. São 50 anos disto.
O Poder pode não ser melhor, mas é numa quantidade tal que seca tudo à volta. Na Madeira, o Poder é muito e tentacular do ponto de vista das cumplicidades, envolvendo todo o público, mas também muito privado que para público falta pouco. Nem sempre o Poder é bom, algumas vezes mau, mas é muito e absoluto, quando tem votos para isso e quanto não tem. E tem sido suficiente para tranquilizar quem governa.
Mas então, isto significa que a oposição é fraca e não consegue chegar ao Poder? Não conseguir chegar ao Poder é só culpa do Poder? Não, não é só uma coisa. Explica parte do problema, em função de um eleitorado que vê o partido como um clube, mas não é só isso que explica esta fragilidade/dificuldade da oposição, que acaba por resultar numa divisão de votos divididos no protesto e no reconhecimento de alguma assertividade e criatividade na forma de pressionar o Governo, situações expressas pelos comportamentos do CHEGA, sobretudo no protesto, e do JPP, na pressão, acabando por haver um cansaço eleitoral relativamente a uma certa inércia e pela inconstância do passado do Partido Socialista, que foi ultrapassado pelo JPP e procura, agora, fazer o seu caminho com Célia Pessegueiro na liderança. Missão hercúlea para Célia Pessegueiro.
Na verdade, o eleitorado deu uma mensagem de pretender manter o PSD a governar, com menos peso, mas a governar, com negociação e consensos, mas ainda assim reconhecendo que as alternativas estavam aquém do esperado e, por isso, PSD no Governo mas relativo e não absoluto. Depois, outra mensagem foi a de que o PS não apresentou a diferença, a solidez e a liderança suficientes para deixar marcas na vida política, não a falar mais alto, mas a falar de forma "musculada" politicamente. Daí os votos incidirem nessa diferença, com maior ou menor credibilidade, mas diferente, e o JPP e o CHEGA terem sido escolhidos para essa missão da diferença, o JPP a cumprir mais e melhor essa função de escrutínio (podemos discutir a forma, mas a insistência e a persistência do JPP foram premiadas), criando estabilidade para poder ter dimensão e suficientes quadros futuros , mas o CHEGA, com tudo o que se sabe, é partido para ir definhando se não houver inflexão para uma consistência coincidente com os votos confiados. Será difícil, agora, é tudo muito vago, pouco consistente, muito efémero, muito atabalhoado.
Mas então, e o PS? Qual o papel do PS na Madeira? O que tem feito, de diferente, para ser diferente, sem obviamente alterar aquela que é a matriz de partido com peso nacional e regional na Democracia? Qual a reação de postura perante a perda do segundo lugar, além da mudança de líder? O que mudou na forma de comunicar, além das conferências de imprensa de sempre e das visitas a organizações, feiras e festas, como de resto aconteceu com anteriores lideranças? Esse é um modelo utilizado por todos os partidos, é verdade, mas quem precisa da diferença é quem quer chegar ao Poder, não é quem se satisfaz em ser oposição. Para subir num quadro difícil, é preciso trazer um modelo com alguma coisa nova, que se veja novo e se sinta novo, o que até agora não tem acontecido, pelo menos com a perspicácia e velocidade esperadas, ainda que se compreenda a dificuldade de assumir a liderança sem atos eleitorais à vista para dar ânimo, mas por outro lado com uma vantagem de haver tempo para preparar terreno e experimentar estratégias novas para depois colher frutos nas eleições.
Célia Pessegueiro foi uma boa presidente da Câmara da Ponta do Sol. E ainda hoje é inexplicável que tenha falhado a reeleição, como talvez merecesse. Tem, por isso, condições para ir além de um PS navegando em "aguas mornas", por muito que a militância considere percurso meritório, até pode ser, mas insuficiente para marcar diferença. É preciso fazer percurso consequente.
É preciso ser-se capaz de uma ação política que não corresponda a mais do mesmo. Não é fácil. Se fosse fácil, já outros, no PS, teriam feito e o partido teria escapado, para cima, a este "quase" em permanência.



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