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O que aconteceu a Paulo Cafôfo?

Foto do escritor: Henrique Correia
Henrique Correia
26 de jan. de 2022
3 min de leitura

Mesmo líder demissionário, fez declarações sobre o novo Hospital que constituem um autêntico "tiro no pé" em véspera de eleições legislativas nacionais.




É um caso para estudo político o que aconteceu com Paulo Cafôfo, a quem se apontava um grande futuro, capaz de protagonizar a mudança de mais de 40 anos de poder social democrata na Região, então já sem Jardim, o "triturador" de líderes socialistas.

Sem o poder jardinista de maiorias absolutas, parecia ter chegado a hora do PS. Estavam reunidas condições, um líder popular, que as pessoas simpatizavam, o percurso na Câmara do Funchal ajudou muito, mas que depois de ter estado quase, quase, foi sempre a descer até ao limite da demissão na liderança socialista madeirense. Liderou a Câmara, ganhou dimensão para o passo seguinte, reunindo o apoio de vários setores da população, mas a verdade é que este percurso para a Quinta Vigia não correu bem, como não conseguiu o objetivo, depois disso nunca mais manteve a mesma chama na oposição, aquele carisma que ganhara antes. Umas vezes por culpa própria, outras por culpa da forma como pretendeu mudar o PS Madeira.

Paulo Cafôfo teve tudo na mão. Há muito tempo que não estavam reunidas tão boas condições para o PSD perder a hegemonia de décadas de governação. E o que aconteceu? A liderança de Cafôfo, que nunca conseguiu unir o partido com uma tentativa de fazer um "novo" PS-M, acabou por se desgastar internamente e a verdade é que é muito mais difícil ser oposição sem lugares para dar nem poder para decidir. Daí que, ao desgaste interno, se seguisse o desgaste externo. De tal ordem que foi a liderança de Paulo Cafôfo que acabou por contribuir para um "rejuvenescimento" do PSD, que apesar dos anos de governação, surgiu a dado momento como a única solução, aos olhos do eleitorado. A partir daí, foi um desbaratar de capital adquirido, por parte do PS, levando a criar condições, até, para perder a Câmara do Funchal, que Cafôfo tinha conquistado de forma competente, histórica mesmo atendendo ao contexto político da Região. O descartar de alguns apoios de outros partidos também não ajudou.

Mas como se isso não bastasse, agora na condição de demissionário, que é outra situação de impasse que não se percebe, fez declarações sobre o novo Hospital que constituem um autêntico "tiro no pé" em véspera de eleições legislativas nacionais, dizendo que a Saúde está regionalizada e que, nesse contexto, a República nem tinha a obrigação de apoiar a construção do novo Hospital. Até fica difícil acreditar nesta declaração para quem, mesmo demissionário, tem um desígnio pela frente que é o de pelo menos manter os 3 deputados que já tinha na Assembleia da República. Acredito que o próprio cabeça de lista, Carlos Pereira, não deve ter agradecido essas declarações.

É verdade que a Saúde está regionalizada. É verdade que tem havido demasiado ambiente de conflito à volta da comparticipação do Estado na construção do novo hospital, relativamente à comparticipação de 50%, é uma questão de aproveitamento político de ambas as partes. Mas a primeira grande bandeira a defender é a da Madeira e se assim não fosse o próprio Paulo Cafôfo jamais teria vindo a público regozijar-se com a ajuda do Governo PS para o novo hospital, em diversas ocasiões em que quis capitalizar esse apoio. Se achou bem então, não pode dizer, agora, que a República nem tinha que apoiar. Além disso, é um projeto devidamente enquadrado como Projeto de Interesse Comum, do Estado e da Região, uma questão também nacional, dentro do quadro que é Portugal, incluindo as Regiões Autónomas.

O contencioso das Autonomias tem servido para alimentar guerrilhas partidárias. E isso é mau. É verdade que esta dialética Região/República não pode ser priorizada pela vertente partidária. Deve ser institucional, acima dos partidos. Até porque não é garantia nenhuma, como se sabe, ser tudo da mesma cor. Chama-se a isso, popularmente, por os ovos na mesma cesta.

Ao tempo que o povo não quer isso.

Quanto ao carisma dos líderes, é difícil ter, mas mais difícil é manter.

 
 
 

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