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  • Henrique Correia

Os "filhos dos pais"


"Sabem quem é o meu pai?". A pergunta, logo assim de repente, já dá que falar. Não é nova, há polícias que a conhecem bem, também há professores que sabem, como não são novos os distúrbios, nem sequer são surpreendentes, pelo histórico de anos e meses anteriores, tanto no Funchal como no Porto Santo, onde se sucedem atos de vandalismo e insurreição à mistura com o álcool (não se sabe se há outra mistura), que em muitas circunstâncias nem precisa ser muito. Meia dúzia de copos, se tanto, dão um prejuízo que não é brincadeira. E vão felizes para suas casas porque a impunidade do "escudo", que não a moeda antiga, deixa um enquadramento de permissão, que a sociedade rejeita, mas que o contexto pequeno em que vivemos encaminha para um certo arquivamento mental das situações.

Os casos, em si, já foram devidamente abordados e é importante deixar a Justiça funcionar. Não é que ela, a Justiça, seja de confiança, como não é a Covid-19. Se calhar, é mais fácil encontrar a vacina para a Covid. Mas também não temos outra solução que seja acreditar numa solução que há-de ser encontrada para que a insensatez seja vista como é, insensata, em vez de ser frequentemente observada com paliativos que resultam de alguns distúrbios de personalidade que as sociedades pequenas agravam pelo núcleo de influências que nelas pululam e que percorrem o cordão geracional sem que para isso seja preciso, necessariamente, qualquer preparação especial. É assim, natural, invocar o "sabem quem é o meu pai", não porque o pai diga, em concreto, mas por aquilo que se vê e que se vive, ao longo do tempo, num enquadramento padrão de observância relativamente ao que é ser "filho do pai". Normalmente influente, ocupando um cargo, público ou não, médio ou alto, mas envolvente do ponto de vista social, que vai formatando, de alguma forma, as personalidades. Depois, com os anos, isso pode ser que passe, e na maioria dos casos passa, não podemos generalizar, mas nestas idades de adolescência é tramado, é altura em que temos o "rei na barriga", que eleva a "coroa" quando se bebe um "shot" (no meu tempo era cerveja e muito bom) e que nos faz subir ao trono do "quero, mando e posso". Quando este "sonho" já acontece na vida real, o caldo está entornado e vem ao de cima quando se chama a polícia e eles chamam pelo pai.

Por isso, é preciso apelar, cada vez mais, a uma postura de responsabilidade, mesmo sabendo que nestas idades é difícil. Ser filho do pai, o tal pai com alguma influência, deveria ser um acréscimo de responsabilidade e não uma desculpabilização para procedimentos inqualificáveis e reprováveis. Mas para isso, é preciso que esse poder seja cultivado, também, no próprio exercício do poder, por parte de alguns desses pais, onde às vezes as influências, as cunhas, o hábito de pedir qualquer coisa a alguém como norma instituída, pode resultar no que se vê quando se reflete na transmissão de gerações. E mesmo que depois, em vários casos, sejam os próprios jovens a ultrapassar riscos, sem culpa direta dos pais, nesses específicos momentos, a verdade é que a pergunta "sabem quem é o meu pai?" já tem tudo a ver.

Ainda vamos a tempo de acreditar numa melhoria do ser sobre o ter. Quando isso acontecer, os "filhos dos pais" também serão melhores.

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