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  • Henrique Correia

Os pais e os dirigentes dos Ronaldos


Pancadaria num jogo de sub-11 deve relançar o debate sobre o que está a acontecer na formação do futebol na Madeira. Dos escalões e das pessoas.



Imagem JM


Uma cena de pancadaria num jogo de sub-11, imaginem só, publicada pelo JM, remete-nos, uma vez mais, para a necessidade de uma reflexão sobre o que somos, num todo e nas partes, o que devíamos ser em termos de sociedade, bem como o que, reiteradamente, insistimos em ser e como queremos parecer o que não somos e que acabamos por mostrar nestes momentos. Pior do que isso, como convivemos bem, e pacificamente, com isto.

Não é só no futebol, mas o futebol é um meio de propagação privilegiado da falta de educação, da falta de caráter, da falta de elevação, de nível, incentivadas pelos dirigentes, muitos dedicados, mas muitos dispensáveis aos clubes e que se perpetuam pela simples razão da inexistência de candidatos para aquele nivelamento.

No caso deste jogo, foi o árbitro. E sem conhecer os contornos todos, mas que para esta reflexão não interessam para nada (nem tem a ver com clubes específicos), constitui mais um episódio completamente lamentável num terreno de jogo, no caso o campo do Liceu, num jogo de miúdos, em formação portanto, mas que semanas a fio têm exemplos desta natureza, que acabam por ser "livres trânsito" para que os próprios miúdos façam uma carreira com estes exemplos e seguindo-os ainda por cima.

E todos querem ser Ronaldos assim. Os Ronaldos, os treinadores dos Ronaldos, os dirigentes dos Ronaldos e os pais dos Ronaldos, que tantas vezes se atropelam nos campos com um olho no miúdo, outro no Manchester e as mãos em cima do árbitro, não vá este "cortar" o sonho desmedido pela medida do sonho.

Isto tem andado calmo por causa da Covid-19, que parou os treinos e parou os jogos. Bastou retomar a atividade para ver o que há de pior. Nada de novo, alguns jogos dos escalões de formação registam episódios graves do ponto de vista da formação de jovens. E não falamos apenas de agressões, falamos de faltas de respeito, de situações que só são mesmo admissíveis, para quem acha admissível, por aquilo a que muitos chamam de calor do jogo, emoção do momento, mas que não passa, efetivamente, de uma manifestação muito mais do ter do que do ser. Famílias inteiras transformam-se, dirigentes e treinadores, alguns, felizmente não todos, transformam famílias e jogadores, tudo em nome de um qualquer objetivo, para o qual encontram os árbitros, quais obstáculos, alguns fracos, sem qualidade, outros fortes com dúvidas, que até podem tirar do sério com uma ou outra decisão, mas num quadro que deve ser encarado com uma perspetiva de formação, de todos, e não como uma competição de vida e de morte, como se fosse para chegar a tempo de um Campeonato do Mundo.

Até ao dia em que se dão conta que um murro no árbitro não é superior à qualidade do ser e do estar, em toda a sua linha, profissional e pessoal. Isto, sim, é ser Ronaldo.


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