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Os políticos gostam do futebol porque dá votos; os dirigentes gostam da política por influência

Foto do escritor: Henrique Correia
Henrique Correia
14 de set. de 2020
3 min de leitura

António Costa não devia integrar a comissão de candidatura de Luís Filipe Vieira. Mas também não se esgota por aí a cumplicidade da política com o futebol


Costa na comissão de honra da candidatura de Luís Filipe Vieira à presidência do Benfica: não fica bem. Seja que primeiro-ministro for, seja que clube for.


Isto é simples para não haver hipocrisias: os políticos gostam do futebol porque dá votos, até pode dar votos inconscientes naquela irracionalidade que o futebol tem, muito de paixão, do momento, muito de coração, pouco de razão. Mas dá votos, que contam. E o futebol gosta da política porque dá benesses, dá dinheiro, dá poder a determinadas figuras para poderem liderar os clubes e as instituições associativas, o que de outra forma, natural, talvez não fosse possível. Esta é a realidade, pura e dura.

Desde sempre que o futebol se movimenta em muitos tabuleiros. Desde sempre que há políticos que integram orgãos sociais dos clubes e com isso procuram tirar dividendos, naturalmente de ordem política e às vezes outros, em troca do que prometem um exercício de influência que tantas vezes tem dado resultado para fazer perdurar autênticas ditaduras democráticas dentro das coletividades. Não importa, prevalece o princípio "ajudei, ajudem-me" que encaixa na perfeição a esta troca de favores.

António Costa decidiu integrar a comissão de honra da recandidatura de Luís Filipe Vieira à presidência do Benfica, nas eleições que estão marcadas para outubro. Como primeiro-ministro, fez mal, mesmo assumindo o seu benfiquismo com naturalidade enquanto pessoa adepta do futebol. Só que as coisas não funcionam assim, Costa evitava problemas se não aceitasse, o que acontece também com o presidente da Câmara de Lisboa. E não vale a pena virem com aquele argumento que o indivíduo António Costa é diferente do primeiro-ministro António Costa e que saberá separar as águas neste processo, que não colhe do ponto de vista da transparência e da credibilidade que um líder de governo deve ter perante o povo, com o qual tem um compromisso de governação. Não fica bem. Seja que primeiro-ministro for, seja que clube for.

Claro que, perante esta realidade, surgem opiniões, em contraponto, que lembram situações similares, de promiscuidade entre a política e o futebol, sublinhando que é melhor assumir publicamente do que ter uma postura de favorecimento que, subrepticiamente, é direcionada para determinado clube. É verdade, mas continua a ficar mal. E não é um mau exemplo que justifica outro. Por isso é que há diferenças.

O problema é que os políticos, na generalidade, têm esta postura. São receios que vêm de longe e bastava para isso lembrar, para falar na Região, por exemplo e por ser fácil de recordar, que também tem um histórico vasto nestas ligações, a tal ponto que até Alberto João Jardim "tremeu" nos Barreiros por causa do futebol. E por acaso, entre muitas decisões que podem ser discutíveis na musculada governação de Jardim, aquela do futebol até era a mais compreensível, entendível e racional à luz do que deve ser a gestão dos clubes e a dimensão da Madeira. Falou no clube único, bastou falar e levou uma assobiadela histórica que ficou marcada no seu currículo. O irracional falou mais alto, uma vez que muitos dos que assobiaram não davam um tostão ao clube, davam enquanto contribuintes, como eu, no pacote que o governo dava. E ainda dá. Como dá aos outros.

Claro que é preciso dar relevância aos clubes, numa vertente da formação, sendo que por vezes os clubes até se substituem ao próprio governo nessa mesma formação da juventude. Mas outra coisa diferente é o desporto profissional, o futebol melhor dizendo, que mexe com mais interesses. E aqui fia mais fino. É outro mundo, outro tabuleiro de influências com clara confusão e cumplicidade, para não dizer outra coisa, entre políticos e dirigentes.

Se Costa tem assim tanta vontade de se associar ao futebol desta forma, então era melhor cumprir a sua função de primeiro-ministro e, nessa qualidade, prestar um grande serviço ao futebol fazendo regressar o público aos estádios com metade da lotação. Seria, certamente, muito melhor do que vimos na Festa do Avante e no Santuário de Fátima.

 
 
 

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