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  • Henrique Correia

Pagar, usar e abusar


A independência que os políticos exigem mas não praticam nos jornais



Lá foi o tempo, há muito tempo, em que a comunicação social era considerado o quarto poder, claro que nada de constitucional, como os outros três, mas pela importância que tinha num contexto de investigação, avaliação e verdadeira representação enquanto mensageiro da voz do povo. Há muito que não é assim, há décadas que não é assim, nem é o quarto poder nem os outros três estão já pela mesma ordem. Até podem pensar que estão, a Constituição até pode dizer isso, mas não é assim no dia a dia. O poder económico subiu vertiginosamente, na mesma proporção de descida da comunicação social. E por isso, é esse poder que, hoje, a pretexto das dificuldades, manda em tudo. Nos políticos, nas empresas de comunicação social e nos jornalistas. Porque paga. E quem paga manda. É simples.

Mas aquilo que, aparentemente, é normal, o mercado a funcionar, mercado dito privado, que supostamente, no caso da Madeira, trouxe maior equilíbrio, relativamente a outros períodos, na verdade não passa de ficção chamada independência. Porque não há nem pode haver comunicação social independente, porque na Madeira isso ainda é mais dificil de alcançar, uma vez que o valor das vendas é residual, o mercado publicitário está em baixa, e a sobrevivência dos órgãos só é possível com a utilização de expedientes, em diferentes formas, mas das mesmas proveniências oficiais, Governo e respetivos departamentos, Câmaras Municipais e fórmulas "adjacentes", além dos apoios, definidos com distribuição melhor identificada, é verdade, relacionados com uma coisa a que chamaram MEDIARAM, à medida para os dois jornais e para dar uma aparência de uma realidade que não é...a real. Uma opção para dizer que independência é isto e que o mercado é privado, o Governo não mete dinheiro como metia. Parece...

Mas é assim. O mercado é este, vale o que vale e as forças em presença sabem com o que contam, sabem o que pagar, usar e abusar. E como pagam, como usam e como abusam. E como reagem, exigem e pressionam no momento de notícias "não", ou porque dizem que o Diário é o "boletim" do PS, ali se publicam os candidatos, as medidas e tudo e mais alguma coisa, ou porque dizem que o JM é o "boletim" de Pedro Calado quando é para divulgar o Orçamento da melhor forma ou a candidatura na forma melhor. São dois lados, duas visões, duas acusações, curiosamente de quem paga, de quem usa e de quem abusa. Mas só quer o que interessa.

E é nesta realidade que a comunicação social se move, numa dialética com o poder económico e com o poder executivo, poderes estes que por vezes não estão preparados para a noticia "não". Esquecem-se que quando usam a comunicação social da forma como usam, tem dois sentidos. Quem paga, mesmo que numa forma de prestação de serviços, julga-se imune, não gosta da crítica, paga só para dizer bem. E a luta contra isto, depende da capacidade de resistência empresarial. Que, como se sabe, vai andando, cada vez mais, a caminho do grupo único.

Enquanto não se resolve, nem se sabe se é para resolver, vamos assistir, por exemplo, a reações como esta, do Governo, às buscas da PJ: "o Governo Regional, surpreendido por uma publicação na comunicação social sobre buscas realizadas nas suas instalações pela Polícia Judiciária, informa que..."

Surpreendido pela publicação, não pelas buscas...

Pr'a melhor, está bem, está bem; pr'a pior, já basta assim

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