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  • Henrique Correia

Porto Santo eternamente sazonal?



Antes do resto, antes de construções, da biosfera e dos preços altos em alta procura, precisa apostar na formação e incentivar uma alteração de mentalidades para o serviço prestado.




Gosto do Porto Santo, tenho simpatia pelas gentes da ilha, há ali um potencial enorme se houver capacidade para o desenvolvimento integrado, que se fala há décadas sempre que o ano entra em agosto, mas cuja ideia, aos poucos, vai esbatendo à medida que as folhas vão caindo das árvores e já a nossa mente começa a trabalhar para o Natal. É pena que tantos anos e milhões depois de ver o que falta, o Porto Santo não vá além de um destino sazonal, como se essa fosse uma fatalidade imutável ao longo de todos os tempos, iguais, tão diferentes, mas sempre com o mesmo efeito na ilha: a abarrotar no verão, a ver passar o tempo no resto do tempo. Era assim antes da pandemia, agravou-se com a pandemia, volta como que a "apagar a luz" já ali ao virar da esquina, lá para outubro.

Não podemos dizer, por ser injusto, que não tem havido um esforço, por parte das entidades regionais e locais, no sentido de retirar o Porto Santo daquela "fatalidade". Há promoção, há épocas em que anunciam chegada de dinamarqueses, polacos, portugueses, alguns chegam, outros cancelam, mas até parece que é desta, o Porto Santo "renasce" a cada avião que aterra, mas "morre" em 8, 9 meses de um ano, entre momentos que deixam a ilha distante de tudo, com barco a meio "vapor" e aviões de passagem.Tirando janeiro sem barco por não haver nada a fazer quanto a isso. A dupla insularidade custa. A dupla cumplicidade e inércia também.

Não restam dúvidas relativamente às potencialidades do Porto Santo, há boa vontade de uma clara maioria da população, que no meio das dificuldades ainda esboça abertura suficiente para as brincadeiras que colocam muito perto das que se fazem com os alentejanos. E tantas vezes ouvimos as brincadeiras, que quando se fala a sério de um ou outro episódio, a nossa primeira reação é pensar que foi anedota. Do género, estão a meter-se com os porto-santenses. E às vezes não é, passou-se mesmo. Não é que situações dessas não ocorram noutro lado, mas ali ganha outra dimensão.

Foi o que aconteceu, recentemente, com uma família que foi jantar, com marcação prévia, tal como a ementa, espetada. Sentaram-se, mas depois das entradas veio a informação que não havia carne. Difícil, uma espetada tradicional sem carne. Difícil de entender por muita explicação que seja dada, desde em agosto há mais gente, os restaurantes não dão para as encomendas e às vezes falta. Ou ainda outro episódio, também num restaurante de referência, onde o empregado chega à mesa e o cliente quer encomendar o prato mas esse mesmo empregado diz que não pode receber o pedido por ser empregado só para as bebidas. Um preciosismo, ali desnecessário.

Ora bem, o Porto Santo precisa urgentemente de tudo. Mas antes do resto, antes de construções, da biosfera e dos preços altos em alta procura, precisa apostar na formação e incentivar uma alteração de mentalidades, precisamente para dar a devida correspondência entre serviço/qualidade/preço. E nessa formação, convém meter os empresários, pelo menos alguns. E talvez com isso evitar estes episódios de contornos anedóticos, mas que pesam em situações futuras de decisão sobre o destino, o voltar ou não à ilha pode depender da forma como se recebe e se serve, num grande hotel ou no bar mais popular do centro. É preciso trabalhar essa parte.

Enquanto se espera, a ilha turística será sempre sazonal.



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