PSD entre o CHEGA não CHEGA


Liderança de Rui Rio à procura do seu norte
Se o PSD quer apostar no vale tudo para tentar chegar à vitória nas eleições nacionais, mesmo que hoje a pouca ideologia conte pouco e a tentadora sede de voltar a mandar supere o trabalho que é preciso para voltar a ter a confiança que já teve, per si, então é dizer, como já disse, CHEGA tudo para cá e que se lixe o eleitorado. É pouco, é redutor, é quase escandaloso pensar que o partido que passa a vida a invocar o nome de Sá Carneiro para às vezes suportar mediocridades políticas, venha agora lembrar o líder histórico social democrata para dizer que ele também fez o mesmo. Enfim, declarações infelizes sempre houve na vida dos partidos e dos políticos.
Esta aliança de conveniência para safar um problema de competência foi lançada por Rui Rio, que entretanto já fez meia dúzia de inflexões para tentar remediar o irremediável impacto público e interno. E André Ventura, qual D. Sebastião, ao mesmo tempo um "enfant terrible" da política portuguesa, vendo-se curiosamente a reboque de um partido, O PSD, que sempre foi competitivo até começar a perder a alma aos poucos e já com pouco tempo para resolver vários dos seus graves problemas. E a chamada “cereja em cima do bolo”, foi mesmo quando Ventura fez a esta declaração: “Não, obrigado. Não queremos, não aceitamos". Foi assim que André Ventura, o "desejado" líder do Chega, falou do alto para o PSD depois de Rui Rio ter vindo manifestar abertura para uma aproximação. Rio colocou-se a jeito e levou com esta daquele que, só pelas sondagens, já põe desesperados os partidos que estão há muito tempo fora do poder nacional, o PSD é um deles, que ficou em “sentido”. Em vez de ser o PSD a escolher com quem vai, é o Chega a dizer que não vai para o PSD.

André Ventura líder do CHEGA
A nível nacional, tem sido um desastre esta liderança de Rui Rio, não está em causa a pessoa, bem intencionada na filosofia de não fazer oposição pela oposição, mas pelo lado construtivo que a política, pura e dura, não perdoa, mas com uma estratégia falha de objetividade, pouco incisivo na crítica, normalmente fora de tempo. O PSD ficou mais frágil com Rui Rio. E este é um daqueles casos em que um bom presidente de câmara poderá não ter, por si só, a garantia de ser um bom líder de partido e daí procurar ser primeiro ministro. O Rio da Câmara do Porto, reivindicativo e lutador, não deve ser este.
Deve dizer-se que um partido tradicionalmente do chamado "arco" do poder não deve estar à espera de fenómenos para fazer um percurso vitorioso, mas sim ele próprio ser o fenómeno da mudança, reinventando-se e não inventando o que não é. 0 ter acima do ser pode ser perigoso para manter os ideais de Sá Carneiro, que umas vezes serve ser invocado e outras nem por isso.
Não sei se no tempo da AD o CDS tinha o que o CHEGA tem hoje, mesmo reconhecendo que André Ventura pode dizer coisas que o politicamente correto não aconselha nem permite. Os fenómenos também têm isso, às vezes dizem coisas assertivas no meio de manifestações de apoio, tantas vezes irracionais, umas vezes mais preenchidas, outras vezes menos., mas podendo conduzir a um patamar de votação surpreendente, a exemplo do que já assistimos pela Europa e, de uma forma mais abrangente, pelo mundo. E nas crises, os discursos de extremos ganham adeptos, muitos adeptos mesmo.
É preciso, pois, manter o discernimento de raciocínio para não assistirmos a intervenções públicas que colocam o PSD na praça a ver quem dá mais e à espera do "contra peso".
Rui Rio quis mudar o PSD mas manteve um núcleo ultrapassado em nome do clientelismo partidário que ele próprio criticara, pensando que seria suficiente para fazer oposição e ganhar protagonismo. Nem ganhou força de oposição nem ganhou protagonismo. Ao ponto de precisar, em ato de desespero, de bengalas que ele pensa serem suficientes para um eventual poder. Mas se os portugueses não acreditarem nisso, não chega lá. E os portugueses acreditam na firmeza de posições, na convicção de ideias e na clareza de discurso. Tudo o que tem faltado.
Na Madeira, o problema não se põe, nesta dialética de poder social democrata, uma vez que o PSD é governo, embora pela primeira vez sem maioria absoluta, fazendo coligação com o CDS. E por isso, não se percebe muito bem esta inoportuna posição de Miguel Albuquerque, ao lado de Rui Rio, dando uma mão ao Chega quando na outra tem o CDS, que às tantas até pode pensar que o seu parceiro já não acredita no pouco valor eleitoral e já estará a preparar terreno para o futuro “companheiro de route”. E mesmo admitindo que alguma impulsividade do líder social democrata madeirense, também presidente do Governo, tenha contribuído para mais uma posição de dizer primeiro e pensar depois, a verdade é que do ponto de vista político as consequências de colocar o “carro à frente dos bois” ou do “coração ao pé da boca”, podem atingir dimensões inimagináveis. São as consequências, normais, e pronto.
E como diz o povo “palavra fora da boca é como pedra fora da mão”. Agora é dar a volta, como já parece estar a acontecer.



Comentários