PSD-M tem anos de "malha de influência" e tem mais votos; é a Democracia

O que acontece é que essa Democracia parece pouca face ao excesso de poder.

Temos assistido, nos últimos dias, a um discorrer de considerações de caráter político, que no fundo não são novas, são até recorrentes, relativamente à permanência do PSD tantos anos no poder, na Região, sem haver a alternância democrática que a própria democracia, na sua essência, pode contemplar numa intenção de regime, mas que nem sempre concretiza na parte prática. Na generalidade é assim, o poder muda, com maior ou menor regularidade, mas há casos de estudo, pelas especificidades muito próprias do núcleo de eleitores, em que isso não acontece. Um homem, um voto. E a soma elege o Governo. Democrático, simples. Até prova em contrário, é o menos mau dos regimes.
Mas então, posto isto assim, do ponto de vista da Democracia, como mudar este paradigma que mantém um mesmo partido no poder há mais de 40 anos, registando-se no entanto alterações deste enquadramento no que diz respeito ao poder local. Não podemos dizer que todo o eleitorado não sabe o que faz porque já mudou em algumas câmaras e depois vota PSD nas regionais, em termos globais. Há realmente um eleitorado que vota no PSD por passagem de testemunho geracional, mas existem outros fatores que são determinantes.
Mas então o que se passa e como se passa? Quando um partido está há muitos anos no poder e tem uma matriz que se carateriza por criar laços com tudo o que é movimento associativo, desportivo, social, cultural, que a cada iniciativa corresponde um apoio, que trata bem os seus militantes de topo e respetiva descendência, que trabalha décadas com os mesmos funcionários, que por sua vez já têm filhos e amigos que vão criando empregos na Função Pública, que apoia, direta e indiretamente jornais que sem ajudas não duravam um ano, que absorve excedentários desses jornais, que não de menor qualidade mas de incómodo pontual, para desonerar orçamentos de empresas privadas, que encontra planos de apoios a esses mesmos jornais, que mantém uma cumplicidade no envio e escolha de informação, trabalhada oficialmente que por vezes ocupa mais de metade dos conteúdos das publicações, que dá apoios a tudo o que é produção e no Desporto vai até à petanca, que dá 100 mil euros a uma prova de golfe porque incentiva os jovens ao desporto e tem obras que nunca mais acabam, quer por concurso público, que tem regras, mas quer, também, por muitos ajustes diretos que já vão meio ao "gosto do freguês", tudo isto explica, em parte, uma rede de interesses, não necessariamente ilegais, mas que pesam, e de que maneira, na forma de exercício do poder e na respetiva permanência. Há uma malha de influência de décadas que vale mais do que o próprio voto. Sem que isso represente menor Democracia. Porque há o voto para oficializar. Acontece é que essa Democracia parece pouca face ao excesso de poder. Que em alguns casos, e há exemplos disso, resulta em abusos de poder que têm afastado muita gente de valor à conta de avaliações sumárias de acordo com estratégias conjunturais. E isto acontece ao PSD, mas também acontece com todos os partidos há muito tempo no poder.
É muito difícil, por exemplo, entrar numa câmara que durante décadas foi gerida por um determinado partido. Veja-se o que aconteceu no Funchal, nas recentes autárquicas, onde em plena campanha, todos os dias, até parecia que a recolha de lixo tinha metido férias tantos os caixotes cheios pela cidade, o que resultava numa clara conclusão de cidade suja e necessidade de mudança. Uma estratégia de comunicação que a retaguarda de Miguel Gouveia deixou escapar para o adversário. Apenas um exemplo entre muitos.
O PSD criou, na Região, um Império. E só se cometer muitos erros é que poderá ser diferente. Mesmo assim, só de medo de perderem as benesses, tem milhares de votos garantidos mais os que os já aquecem "em lume brando" nas universidades com a promessa de bolsa familiar de emprego.
Mas é assim, também, a Democracia. O povo decide e a oposição faz o que pode e o que sabe para contrariar esta realidade de décadas. Mas para isso, a oposição também não pode andar com gente em bicos de pé, ao estilo "eu é que sou o presidente da junta" do humorista Herman José.



Comentários