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"Sá Carneiro nunca faria acordo com o Chega e na noite negra da "Troika" iria ter outra alternativa"

Foto do escritor: Henrique Correia
Henrique Correia
5 de dez. de 2020
3 min de leitura

D. Januário Torgal Ferreira à RTP2: "A ditadura tinha uma voz muito mais alta. Os lugares que eram servidos e as instituições, levavam a que as pessoas ficassem caladas, hoje ainda é capaz de haver isso. Eu não posso falar muito, caso contrário perco o meu trabalho"


Sá Carneiro foi um estadista sem ter tempo para sê-lo. Foi um homem de referência no pouco tempo que teve para sê-lo. Deixou marcas no tempo, no seu tempo e nos outros tempos, nos tempos de sempre, que extravasaram as "fonteiras" do partido. Estávamos numa época diferente, de procura pela consolidação da democracia, eram outros objetivos, mas o País precisava de lideranças, que entretanto o tempo acabou por fazer desaparecer, sem que tivessem emergido "produções" similares, em verticalidade e clarividência. E neste particular, não há esquerda nem direita, existem líderes, estejam onde estiverem.

Neste contexto, quando se assinalam os 40 anos da morte de Sá Carneiro, no fatídico acidente de aviação, em circunstâncias ainda não totalmente, despertou-me a atenção, particularmente, uma entrevista que o Bispo Emérito das Forças Armadas. D. Januário Torgal Ferreira, concedeu à RTP2. Era amigo de Sá Carneiro e fez declarações que são, também elas, referências de ontem e de hoje.

"Sá Carneiro trouxe aquilo que hoje é tão necessário para nós como o pão para quem tem fome, a democracia. Ele experimentou o outro lado, a ausência de democracia, a polícia política a espiá-lo e a determinados grupos, o direito de reunião, uma guerra colonial onde quem fosse contra era como se fosse uma blasfémia ou pecado contra a inteligência e contra a Nação. Quem dissesse vamos acabar com a guerra era como um traidor. Era um estudioso e um investigador".

D. Januário, na frontalidade que se lhe reconhece, diz que Sá Carneiro "fora de um determinado círculo, onde era reconhecido por gente de grande qualidade, Sá Carneiro não tinha muitos apoios. A ditadura tinha uma voz muito mais alta. Os lugares que eram servidos e as instituições, levavam a que as pessoas ficassem retraídas, hoje ainda é capaz de haver isso. Eu não posso falat muito, caso contrário perco o meu encargo, o meu trabalho. As pessoas andavam todas à cautela".

O Bispo Emérito das Forças Armadas citou Dante - "Os julgados mais quentes do Inferno são para aqueles que no momento difícil jogam na neutralidade - para afirmar que Sá Carneiro não foi um mito, foi uma figura histórica, nunca jogou na neutralidade, teve naturalmente coisas erradas, era um homem, mas a intuição e o sentido justo levou-o a discutir assuntos que antes não eram possíveis".

Na entrevista, D. Januário aborda um Sá Carneiro nos dias de hoje para dizer, sem vacilar, que "ele nunca faria um acordo com o Chega. Sá Carneiro iria refletir nesta realidade séria. Porque é que um grande número de dirigentes do Chega vieram do CDS, a começar pelo que está à frente. Ele nunca estaria de acordo com a guerra no Iraque. Nunca permitiria, no exercício de primeiro-ministro, deixar o ministério de serviço para ir para uma Comunidade Europeia, por muito que a União Europeia mereça o maior respeito (falava de Durão Barroso). E mais: na noite negra da "Troika", Sá Carneiro haveria de buscar uma alternativa séria para irmos para caminhos diferentes da justiça que nós tivemos, E hoje, se fosse vivo, haveria de procurar, com o seu carisma, abrir no mundo partidário uma flecha para que o pluralismo entre as várias correntes políticas fosse um facto. Precisamos de uma direita sólida, de uma esquerda sólida e de partidos ao centro, mas num diálogo democrático sério pela verdade e pela liberdade".

 
 
 

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