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  • Henrique Correia

Uma no cravo...


Passaram 47 anos do 25 de abril de 74 e o excesso de poder não mudou muito. O poder democrático exerce a sua esfera de influência em tudo o que é sítio, tudo o que se mexe, no fundo. E, no entanto, estamos em democracia




Houve muita gente escandalizada com uma sondagem do Expresso dando conta que só 10% dos portugueses sentem que vivemos numa democracia plena, o que é preocupante num momento em que passamos os 47 anos do 25 de abril de 1974, uma Revolução que encaminhou o país para uma democracia, com altos e baixos, mas para todos os efeitos uma democracia. Por isso, é difícil compreender as razões que levam as pessoas a muitas reservas quanto a termos uma democracia plena. Como é que 47 anos depois do 25 de abril, de exercermos o direito a voto, de termos liberdade, ainda sentimos dúvidas sobre a liberdade que temos. Ou que não temos.

Mas o que se passa é simples. Os portugueses pensam assim, não porque acham que não vivemos em democracia, não porque consideram Portugal uma ditadura, porque sabem que estamos em democracia, mas porque não sentem a democracia exercida de forma plena, talvez porque exercida numa estrutura partidária dominante, excessivamente assente numa teia de interesses, sem espaço para o dever e o direito cívico da população sem a integração na teia dos partidos.

O que se passa, na realidade, é que desde há muitos anos, também na Madeira, vivemos obviamente em democracia, não é isso que está em causa, mas também vivemos com um claro excesso de poder, que tantas vezes foi confundido com o célebre défice democrático, que também serviu como bandeira anti-jardinismo, num clima favorecido pela forma musculada como Jardim exercia a influência e o poder. O excesso de poder era e é, por si só, uma espécie de défice democrático, mas no entanto vivíamos e vivemos em democracia e o povo votava, como continua a votar. Menos, mas continua.

Passaram 47 anos do 25 de abril de 74 e o excesso de poder não mudou muito. O poder democrático exerce a sua esfera de influência em tudo o que é sítio, tudo o que se mexe, no fundo. E estamos em democracia. Os meios pequenos são propícios a essa propagação, mas indiretamente vão "asfixiando" algumas liberdades, sem que a liberdade afixada pela democracia sofra qualquer abalo no seu figurino formal. A liberdade como direito esbarra, por vezes, no dever do reconhecimento.

Como expressava uma canção ligada a abril de 74 "Uma gaivota voava, voava,

assas de vento, coração de mar.

Como ela, somos livres, somos livres de voar".

Mais de quatro décadas depois, valeu a pena o "voo" de abril. Vale a pena... mesmo "voando", agora, mais baixinho.








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