Valeu a pena o 25 de abril mas falta qualquer coisa ao 26

As instituições fecharam-se sobre si próprias, as crises reduziram os direitos aos "serviços mínimos" e os sindicatos, com "pezinhos de lã", fazem o que podem, ou seja, pouco,

O 25 de abril de 74, faz agora 48 anos, valeu a pena. Sem mas. Valeu a pena. Ponto. A liberdade de expressão, de opinião, de exercício da democracia, ainda que por vezes imperfeita, foi a renovação de sobrevivência de um povo e a afirmação de uma sociedade com decisão no seu futuro através do mecanismo de participação assente no voto e nas diferentes formas cívicas de manifestação dos níveis de pensamento. Nada é perfeito, o 25 de abril também não foi e a democracia também não é. Mas cumpriu-se abril na essência que esteve na génese do movimento dos capitães e na "sede" de liberdade de um povo.
Posto isto, que não fiquem dúvidas sobre a importância do 25 de abril de 74 para a nossa História, no caso da Madeira uma História que conduziu à Autonomia e que, por via desse estatuto, um desenvolvimento que não podemos ignorar por muitas peripécias que tenham ocorrido no processo e que, passados estes anos, ainda configuram um sistema, tal como os outros, imperfeito.
Cumpriu-se o 25 de abril de 74, os portugueses ganharam liberdade, é verdade. Mas como é que se explica que um dos ideais, a capacidade de resistência e reivindicação de um povo, o espírito lutador que uma revolução deveria ter deixado raízes, tenham sido realidades que se esfumaram no tempo e que levaram à criação de uma sociedade resignada, amorfa, individualista, sem noção de conjunto e com a economia a sobrepor-se aos valores que fazem as grandes sociedades, as grandes revoluções e as mudanças. Os portugueses, onde os madeirenses se incluem, perderam o espírito crítico no culto do princípio, errado, de quem não está a favor está contra, reduzindo qualquer reação que vise criticar, alertar, sem que isso seja interpretado como uma reação do inimigo público. As instituições fecharam-se sobre si próprias, as crises reduziram os direitos aos "serviços mínimos" e os sindicatos, com "pezinhos de lã", fazem o que podem, ou seja, pouco, porque os deveres passaram a ser mais do que os direitos e as consequências das tomadas de posição, com a agravante se forem em regiões pequenas, assumem contornos que, não podendo ser ligados a eventuais posições contrárias, acabam por ter reflexos não só profissionais, mas também pessoais e não só na respetiva área laboral. Os canais de influência, os favores, a cunha legalizada e as estratégias cúmplices e promíscuas entre poderes, sempre legais e aceites pacificamente pelos setores instalados, são realidades que abril não resolveu e que, não raras vezes, muitos setores da população apontam como uma situação onde falta cumprir abril de 74.
Quando há anos se falava no défice democrático aplicado à Madeira, no tempo de Alberto João Jardim, a classificação era excessiva para o que realmente acontecia. O que havia, na realidade, essa excesso de poder, um "superavit" de poder, que "rasgava" toda a sociedade assente no tal princípio de quem não é a favor é contra. Era comunista portanto. Assim, simples. E obviamente, salvaguardando o respeito pelo PCP, não era assim na maioria dos casos. Mas o conceito do inimigo externo servia.
E passados 48 anos, não está muito diferente esse conceito. O que se passa é que existem mais ramificações sectoriais. Assim, exercida democraticamente, como democraticamente falando.
Mas esta realidade significa que ainda falta cumprir abril de 74? Julgo que não, abril está cumprido, foi uma conquista inalienável.
Mas lá que falta qualquer coisa ao "26 de abril", lá isso falta.



Comentários