Votação antecipada com horas de espera à moda antiga

Desta vez, qualquer cidadão podia votar hoje sem justificar porquê. E até certo ponto, foi bom, se calhar até permitiu a votação a muitos que iriam, como sempre, e nestas eleições em particular, engrossar a abstenção.


Foi um dia de votação à moda antiga, como aquelas que aconteceram depois do 25 de abril ter demonstrado que, afinal, um português com mais de 18 anos representava um voto e, com ele, podia optar por contribuir na decisão sobre os representantes do povo, quer seja Presidente da República, quer sejam as Assembleias, Regional e de República, ou para o poder local, nos seus diferentes órgãos.
Nessas primeiras eleições, o povo estava ainda "verde", ainda não estava muito por dentro do processo democrático, estava na fase de se achar importante por poder votar, por achar que era mesmo verdade que, tal como a cantiga era uma arma, como dizia a composição de José Mário Branco, de 1973, também o voto tinha qualquer coisa de belo e de "bélico", quanto baste, capaz de alterar o espectro político. Bons tempos, tempos em que as filas do povo representavam, também, nem que fosse a ilusão da mudança.
Há muito tempo que não se viam filas assim, no continente, também na Madeira, hoje, dia de votar antecipadamente para as eleições presidenciais de 24 de janeiro. Foi muita gente, lá e cá, muitos escolheram pela novidade de poder votar antes sem ser recluso ou se enquadrar no perfil permitido para essa antecipação.
Desta vez, qualquer cidadão podia votar hoje sem justificar porquê. E até certo ponto, foi bom, se calhar até permitiu a votação a muitos que iriam, como sempre, e nestas eleições em particular, engrossar a abstenção.
Tal como naquelas eleições de boa memória, bons tempos de acreditar nos impossíveis, esta antecipação teve filas, mas desta vez foram filas porque as mesas foram poucas e, porventura, ninguém estava à espera de tanta gente ao mesmo tempo. Talvez fosse isso.
Mas o importante é que houve participação, em democracia é sempre de louvar que os eleitores votem e decidam, em consciência. Tal como antes, as longas filas de espera marcaram um dia eleitoral. Talvez, também, porque o povo, só para contrariar, decidiu não ficar em casa quando o governo manda ficar, sabendo-se que o voto é uma das exceções que o estado de emergência prevê no confinamento, no caso do continente, em particular. Como se a democracia colocasse o vírus à distância.



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